Um abalo dessa dimensão é sempre devastador. Mas seus destroços se superdimensionam ao desnudarem as condições de sobrevida que assolam toda uma população.Zilda Arns é a mártir de um povo que grita há muito tempo e só agora, com essa tragégia, está se fazendo ouvir de alguma maneira. Até quando a humanidade vai se proteger por cercas e fronteiras? Até quando a distância geográfica continuará nos servindo de consolo em momentos como este?
As capas dos jornais de hoje, quatro dias depois do terremoto, conseguem ser mais terríveis e chocantes do que tudo o que já foi visto até aqui. Os mortos estão sendo enterrados em valas. Muita gente ainda é procurada. Um tapete de corpos está espalhado em frente ao necrotério da cidade. Quem sai para comprar comida corre risco de saque no caminho do mercado para casa.

Podem me dar toda e qualquer explicação, mas eu NUNCA vou entender como, mesmo depois de tantos anos, o Haiti tenha mudado tão pouco. Que mensagem essas pessoas que dormem na rua com medo de novos tremores querem transmitir?

Já faz tanto tempo que o homem foi à Lua... Faz anos que ouvi a notícia do primeiro transplante de coração. Clonagem e modificação genética de alimentos já viraram papo de botequim. A moda agora são as células-tronco embrionárias e a nanotecnologia. E o Haiti? Ah, o Haiti não é aqui!
A estimativa é que cinquenta mil integrantes do corpo de Cristo tenham se despedido da vida com o terremoto. Mas o que me preocupa são esses outros tantos milhões que, abatidos por feridas internas e externas ainda mais profundas, precisam continuar a responder por parte da sustentação deste corpo, já tão debilitado.

HAITI
(Caetano Veloso/Gilberto Gil)
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

